Barghest

O Cão Espectral Guardião das Terras Inglesas

Em meio às brumas das colinas inglesas e às vielas escuras de antigas cidades, o Barghest desperta o medo e a admiração. Com histórias que atravessam gerações, sua presença é tida como um presságio de eventos marcantes, seja como arauto da morte ou como um guardião de determinados territórios. 

A Origem da Lenda

Ele em suas raízes no folclore do norte da Inglaterra, particularmente nas regiões de Yorkshire e Northumberland. Seu nome pode ter origem no termo "Bahr-geist", que significa "espírito do berço" em uma referência ao seu possível papel de guardião, ou "Bar-geist", que pode se referir a um "espírito do portão". Relatos sobre sua existência variam de vila para vila, mas todos concordam em uma coisa: cruzar seu caminho é uma experiência inesquecível

Características da Criatura

Os relatos descrevem o Barghest como um cão negro de tamanho descomunal, comparado a um bezerro ou até mesmo um cavalo. Seu corpo é envolto em sombras e neblina, tornando sua forma difícil de discernir completamente.  Possui olhos brilhantes como brasas, e seu uivo é dito ser capaz de gelar os corações mais valentes. 

Outras características associadas à criatura incluem:

  • A capacidade de desaparecer e reaparecer em outro local num piscar de olhos. 
  • Garras que deixam marcas profundas no solo, mesmo sem um corpo físico aparente. 
  • Uma presença opressiva que pode ser sentida antes mesmo de ser vista. 
  • A habilidade de mudar de forma para confundir aqueles que tentam persegui-lo. 

O Barghest como guardião

Embora a maioria das histórias sobre o Barghest o retratem como um presságio de morte, algumas tradições o veem como um protetor de áreas específicas. Ele vigia cemitérios, ruínas e estradas antigas, afastando aqueles que buscam profanar locais sagrados ou cometer atos perversos. 

Nessa versão da lenda, o Barghest se assemelha a outros cães sobrenaturais europeus, como os Cães de Fogo do País de Gales e o Moddey Dhoo da Ilha de Man, todos associados à proteção de lugares e almas inquietas. 

Encontros e relatos ao longo da história

Diversos relatos históricos mencionam aparições do Barghest em diferentes partes da Inglaterra:

  • Yorkshire: Conta-se que o Barghest aparece nas ruelas de York, uma das cidades mais antigas da Inglaterra. Alguns afirmam que ele patrulha a Clifford’s Tower, um local com uma história sombria de execuções e batalhas.
  • Whitby: Nessa cidade costeira, o Barghest é dito vagar entre as ruínas da Abadia de Whitby, uivando ao vento e espreitando os viajantes tardios.
  • Dartmoor: Apesar de ser mais associado ao folclore do norte, algumas histórias sugerem que um cão espectral semelhante vaga pelos pântanos de Dartmoor, possivelmente confundido com o Barghest.

O Barghest na cultura 

O mito do Barghest não permaneceu apenas no folclore oral. Com o passar do tempo, ele encontrou espaço em diversas expressões da cultura popular:

  • Em literatura, autores como Arthur Conan Doyle se inspiraram na lenda para criar histórias icônicas, como "O Cão dos Baskervilles".
  • Nos games e RPGs, o Barghest aparece como uma criatura mítica em diversos cenários de fantasia.
    • No primeiro The Witcher (2007), o Barghest é um inimigo espectral que surge em torno de aldeias amaldiçoadas, atacando viajantes e causando terror.
    • Em Dungeons & Dragons (D&D), o Barghest é uma criatura extraplanar, uma fusão de goblin e lobo demoníaco vinda do plano de Gehenna. Ele é um devorador de almas que pode se transformar entre sua forma lupina e goblinoide.
    • Em Castlevania: Aria of Sorrow, o Barghest como um monstro fantasmagórico que ataca o protagonista em sua jornada pelo castelo do Drácula.
    • Em Final Fantasy XI, o Barghest aparece como uma criatura poderosa semelhante a um cão infernal.
    • Em Pathfinder (RPG de mesa e videogame), o Barghest é tratado de maneira semelhante ao Dungeons & Dragons, como uma criatura demoníaca ligada ao plano de Gehenna.
    • Em Vampiro: A Máscara, (World of Darkness) fazem referência a Barghests como aparições espectrais que servem a certas linhagens sobrenaturais.
    • Em Shadowrun (RPG) menciona criaturas semelhantes ao Barghest, muitas vezes usadas por gangues ou entidades místicas.
    • Em Changeling: The Lost (jogo do World of Darkness),  apresenta bestas faéricas e espectros que lembram as lendas do Barghest.
    • Em Ravenloft (D&D), a ambientação gótica de Dungeons & Dragons apresenta variantes do Barghest como aparições amaldiçoadas ligadas a vilões vampíricos e necromantes.
  • No cinema, filmes de terror e suspense ocasionalmente utilizam sua imagem como símbolo de presságio e medo.
    • O Cão dos Baskervilles (1939, 1959, 1983, 2002, 2022): Inspirado no conto de Arthur Conan Doyle, O Cão dos Baskervilles retrata um Barghest que aterroriza uma família nobre inglesa.
    • Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004):  O Grimm, um enorme cão negro que aparece para Harry como um presságio de morte, é inspirado nas lendas do Barghest e de outros cães espectrais britânicos.
    • The Hound of the Baskervilles (BBC, 2012 - Sherlock): O episódio moderniza a história do Barghest como uma criatura genética criada em laboratório.
    • Supernatural (série, 2005-2020): Criaturas baseadas no Barghest aparecem em episódios que exploram mitos britânicos e cães infernais.
    • Hellboy (2004, 2019): O filme apresenta cães demoníacos que lembram muito o Barghest em design e conceito, como Sammael, uma criatura lupina que persegue o protagonista.

Essa permanência na cultura moderna reforça o fascínio que essa criatura exerce sobre o imaginário popular. 

Ecos do presente

Fora sua parte de agouro, há uma reflexão que pode ser pensada a partir do ponto de que talvez o medo não fosse do cão em si, mas sim, talvez fosse daquilo que ele impedia que os humanos fizessem. Além disso, há um outro aspecto a ser observado: a proteção de limites. Na natureza, há lugares onde não se entra durante determinadas épocas para permitir que a vida continue seu ciclo. Nos museus, algumas obras permanecem protegidas para que atravessem gerações. Na própria vida, certos silêncios guardam dores que precisam de tempo antes de serem compartilhadas. Há fronteiras que precisam ser estabelecidas e para os que veem de fora pode ser sinal de mau presságio, mas para quem está vivendo, talvez seja a demarcação onde o respeito está sendo construído. 

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